“O futuro de Angola depende muito do nosso patriotismo” – Erica Nelumba

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Médica especializada em dermatologia, Erika Nelumba é uma das dezenas de vozes que se destacam, há mais de uma década, no cancioneiro feminino angolano.

Apesar do compromisso com a Medicina, em que se diz sentir como “um peixinho dentro da água”, a artista mantém o amor pela arte, depois de algum tempo afastada dos grandes palcos, por razões meramente académicas.

Segundo a cantora, em entrevista à ANGOP, a carreira musical deixou de ser uma das principais fontes de renda, mas a música ainda faz parte da sua vida.

Nesta conversa, Nelumba defende a necessidade da criação de novos mecanismos de cobrança de direitos de autor e conexos em Angola, para que os criadores angolanos possam usufruir, efectivamente, dos seus benefícios.

A também médica faz, igualmente, um breve olhar sobre a situação do país, confrontado com desafios difíceis por causa da Covid-19, e afirma que o futuro de Angola depende muito mais do patriotismo dos angolanos do que de qualquer crise económica e pandémica.

Siga a íntegra da entrevista:

ANGOP – De há um tempo a esta parte, Erika Nelumba tem aparecido mais como médica do que cantora. A sua carreira musical está ameaçada ou ainda gera renda?

Erika Nelumba (EN): Na verdade, não vejo a minha carreira musical como um ganha-pão. Desde o início, sempre encarei como forma de expressar os meus sentimentos e visão do mundo. Embora também faça questão que seja uma actividade auto-sustentada, não é, a priori, a minha fonte primária de renda.

ANGOP – Como tem olhado para este momento adverso, causado pela Covid-19, em que milhares de fazedores de arte se encontram praticamente na penúria, por falta de espectáculos?

EN: Penso que passamos todos por um mau bocado, independentemente da área profissional. Obviamente que, para quem se viu totalmente privado do exercício da sua profissão e viu bastante reduzida a sua renda, a situação tem sido muito mais dramática. Acredito que estejamos num momento de retorno às nossas actividades (com os devidos cuidados) e que o momento serviu para procurarmos outras formas de vender a arte.

ANGOP – O que acha que o Governo precisa de alterar no que diz respeito ao entretenimento, sobretudo nesta fase difícil de pandemia?

EN: Penso que já seria um grande avanço se tivéssemos garantias de pleno usufruto das nossas obras, através da criação de mecanismos de cobrança de direitos de autor e conexos. Do meu ponto de vista, tem sido feito um trabalho neste sentido, porém o seu resultado ainda não se faz sentir.

ANGOP – Enquanto isso não acontece, os artistas têm de suportar o aperto da Covid-19. Tem uma palavra de consolo para os colegas de palco e de estúdio?

EN: Estamos juntos. Vamos acreditar que, em breve, estaremos novamente em pleno exercício daquilo que nos faz vibrar e dar sustento aos nossos.

ANGOP – Mudando de ângulo, convidamo-la para essa entrevista de perfil para  falar, essencialmente, sobre a sua vida. É uma das cantoras angolanas que romperam barreiras e se afirmaram no mercado. Qual foi o segredo?

EN:  Amor a tudo quanto me proponho fazer, persistência, resiliência, dedicação e ajuda de muitas pessoas que viram em mim potencial e me ajudaram a chegar até aqui.

ANGOP – Neste vaivém, onde fica a Erika cantora e a Erika médica?

EN: Cada uma tem o seu espaço na minha vida e um lugar especial no meu coração. Diria que sou metade de cada uma delas.

ANGOP – É fácil conciliar os dois papéis?

EN: Fácil não é, mas também não é penoso, aliás, se o fosse, provavelmente já tivesse desistido. São dois papéis que encaro com naturalidade e leveza. A ajuda e a compreensão de todos que lidam comigo, desde o companheiro, família, colegas de trabalho e até chefes, têm sido fundamentais, para que consiga levar ambas as actividades a bom porto.

ANGOP – O que lhe dizem os pacientes quando descobrem que é a cantora Erika?

ANGOP – Como tem sido a promoção do seu produto no mercado internacional, já que grande parte dos nossos músicos busca outros?

EN: Agora já não tem sido grande novidade, pelo menos para os mais adultos, visto que já exerço as duas profissões há algum tempo. Também penso que o uso de máscara e de todo o equipamento de biossegurança tem ajudado a manter-me um pouco disfarçada.

ANGOP – Quando olha para 2002, marcado pela aparição no concurso “Voz do Ano”, organizado pelo “Karaoke”, e vê o caminho que percorreu, o que lhe vem à cabeça? Imaginou, na altura, que chegaria onde chegou?

EN: Sinceramente, nunca pensei que chegaria até aqui. Pensei que, por esta altura, já tivesse desistido (…).

EN: O que temos feito é apostar na qualidade do meu trabalho (sem nunca esquecer a essência angolana) e criar canais de distribuição a nível internacional. Felizmente, com a Internet, hoje há possibilidade de termos o nosso trabalho numa montra em que, praticamente, qualquer cidadão do mundo consiga ver. Precisamos de trabalhar, para melhorar a visibilidade do mesmo.

ANGOP – De onde busca a inspiração para o trabalho que apresenta ao público?

EN: A vida em si, com todas as suas nuances, já é uma grande fonte de inspiração. Porém, gosto muito de falar de temas como o amor, dificuldades e superação.

ANGOP – Depois de duas interrupções da carreira artística para a conclusão da formação académica, o que se pode esperar de si num futuro próximo?

EN: Manter a minha actividade profissional, como dermatologista e como cantora, aprimorando sempre o meu conhecimento e a minha arte, elevando-os aos mais altos patamares possíveis.

ANGOP – Que projectos tem preparados a curto e médio prazos?

EN: Para curto-prazo, o lançamento de novos trabalhos.

ANGOP – Já que falamos em música, que avaliação faz da música angolana?

EN: Acho que estamos no bom caminho, com bastante diversidade. Porém, entendo que ainda há pouco espaço para quem, por exemplo, vive fora de Luanda.

ANGOP – Há quem diga que a música é uma das vias do processo sócio-educativo, e os cantores, como ícones, têm seguidores que imitam tudo quanto fazem. Até que ponto estão preparados para ajudar na edificação de uma sociedade sã?

EN: Para mim, isso é relativo, considerando a educação e o percurso pessoal de cada um. Considero que, como artistas, temos, sim, um papel social e de edificação, porém cabe ao seguidor/fã/ admirador decidir o que cabe melhor na sua vida.

ANGOP – Acredita que os músicos têm sido bons exemplos para a construção de uma sociedade moralmente saudável? É que há muitos escândalos na classe e vários artistas cujas práticas deixam algumas dúvidas…

EN: O mundo da música requer, muitas vezes, artifícios para chamar a atenção do público, imprensa e fãs, o que gera mais visibilidade e, em última instância, vendas. Esses artifícios são tanto mais vazios quanto mais vazia for a arte que apresentamos. Entretanto, nem todos os artifícios são bons ou construtivos. Cabe ao consumidor identificar quando está perante tais artifícios e se é do seu interesse consumi-los.

ANGOP – Em termos musicais, há vozes que dizem que a nova geração nada traz de novo à música angolana, porque aposta mais na produção de música “descartável”, ou seja, comercial? O que diz a respeito dessa afirmação?

EN: Penso que deve escolher melhor quais artistas da nova geração ouve. Há muitos bons cantores na nova geração, talvez não tenham tanta visibilidade quanto os maus.

ANGOP – Tem procurado ouvir ou contactar artistas da “velha geração” quando está a preparar um novo tema musical?

EN: Desde criança, oiço música angolana e, embora não tenha nenhuma “tradicional” no sentido mais literal da palavra, tenho interesse em acrescentar os nossos elementos às minhas músicas, sobretudo em relação às línguas nacionais e expressões locais.

ANGOP – O testemunho está a ser bem passado?

EN: Diria que já estamos num momento de passagem de testemunho não de apenas uma, mas de pelo menos duas gerações (…). A geração de 80, por exemplo, tem o trabalho facilitado, pela maior amplitude de divulgação do seu trabalho. Mas, de uma forma geral, observando alguns artistas de várias gerações, considero que sim.

ANGOP – Fruto do que se faz e do que se apresenta, actualmente, no mercado angolano, considera que estamos à altura de competir com outros mercados?

EN: Sim, todavia precisamos de apostar mais em artistas que fazem a nossa música de raiz.

ANGOP- Como cantora, já se sente realizada?

EN: O sentimento de realização, apesar de bom, é prejudicial, na medida em que nos coarcta a possibilidade de evolução. Prefiro acreditar que continuo no caminho da realização, estabelecendo patamares mais elevados depois de cada conquista.

ANGOP- Que futuro antevê para Angola face às dificuldades impostas pelas crises económica, financeira e pandémica da Covid-19?

EN: Do meu ponto de vista, o futuro de Angola depende muito mais do nosso patriotismo, amor por esta terra, comprometimento e vontade de fazer Angola melhor, do que de qualquer crise económica ou pandémica. Crises são momentos que, se bem manejados, podem levar-nos ao crescimento. Entretanto, a ausência dos valores acima citados, com certeza, será prejudicial para as futuras gerações.

ANGOP – Onde fica a família?

EN: A família é um dos meus alicerces, pela qual serei eternamente grata.

ANGOP – O que lhe dá mais trabalho: preparar um álbum ou cuidar da sua casa?

EN: Dão mais prazer do que trabalho, pois são coisas que gosto muito de fazer.

Perfil

Cantora, compositora e médica, Erika Nelumba iniciou a carreira musical em concursos, em 2001, e rapidamente foi descoberta pelo produtor Betomax, proprietário da produtora Homónima, onde gravou o seu primeiro álbum, com destaque para a canção “Arrependimento”, primeiro grande sucesso da também médica.

Em 2002, com apenas 19 anos, participou e venceu o concurso musical “Voz do Ano”, organizado pelo “Karaoke” do cinema Karl Marx, tendo-se revelado nas categorias “Voz da Semana” e “Voz do Mês”.

Em 2003, arrebatou o “Top Rádio Luanda”.

Conquanto tenha conseguido um sucesso assinalável com a gravação do seu primeiro CD, a sua carreira sofreu um “período de silêncio” voluntário, para concluir a licenciatura em Medicina, pela Universidade Jean Piaget, em Luanda, facto que ocorreu em 2008.

Interrompeu, novamente, a música por motivos académicos, de 2011 a 2015, para concluir a especialização em Dermatologia pela Universidade de São Paulo, Brasil.

Discografia

Para além do CD “Polivalente”, gravou “Pensando em ti” (2003), disco com o qual foi distinguida pelo “Top Rádio Luanda”, na categoria “Voz Revelação”.

Na sequência, surgiu, em 2008, o CD “Agora Sim”.

Angop

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