Moradores do Povoado dizem que uma casa não dá de comer

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Moradores do Povoado, bairro onde há uma semana 500 famílias angolanas viram as suas casas de chapa destruídas, continuam a dormir ao relento, embora as autoridades prometam realojá-las em breve, uma notícia que apanhou de surpresa e desagradou aos representantes da comunidade.

A novidade sobre o realojamento, um loteamento para autoconstrução a 60 quilómetros de distância foi, aliás, divulgada pelos jornalistas, provocando revolta e descontentamento nos moradores do bairro que prometem não arredar pé e pedem ajuda ao Presidente angolano para encontrar uma solução condigna.

No Povoado, um aglomerado de casebres de chapa, encravado entre a Praia do Bispo e o morro da Samba, nada mudou desde que, há quase dois anos, estes mesmos moradores falaram aos jornalistas a propósito do escândalo “Luanda Leaks”, queixando-se das más condições em que vivem.

Mantém-se a miséria, a falta de água, luz e saneamento básico, a abundância de lixo e de moscas, as valas com água suja onde brincam as muitas crianças que por ali se tentam distrair com jogos improvisados

Se algo mudou foi para pior, como indicia a amálgama de chapas retorcidas que por ali se encontra, trágica recordação do incêndio da passada quarta-feira que arrasou as casas de centenas de pessoas

Muitos perderam o pouco que tinham na aflição de salvarem as famílias. “Ouvimos os gritos de “incêndio, incêndio”, mas não sabíamos de concreto onde havia o incêndio”, conta Pedro Alexandrino, de 51 anos e residente no bairro há oito.

À medida que o fogo se propagava, a grande preocupação foi tirar as botijas de gás e os documentos. Alguns não foram a tempo e ficaram sem nada. “Foi um esforço em vão”, lamenta.

Nem todos viram as suas casas destruídas pelo fogo, mas muitas ficaram inabitáveis pois foi necessário arrombar as paredes de chapa, encostadas umas às outras, para fugir com vida no meio dos becos. No total, 144 casas ficaram queimadas e 510 famílias ficaram sem teto.

“Já não há condições de voltar, estamos aí ao ar livre, tanto os afetados como os não afetados. Angolanos que somos, vivemos nestas condições em plena cidade de Luanda”, desabafa o desalojado.

O bairro tem tido visibilidade mediática, sempre por maus motivos. Em 2013, a comunidade piscatória da Areia Branca foi desalojada, sem aviso prévio, para erguer um projeto urbanístico ligado a uma empresa de Isabel dos Santos que afinal não se concretizou.

Depois de rebentar o escândalo Luanda Leaks, no final de 2019, os moradores do Povoado viram novamente recair sobre si a atenção dos jornalistas. O incêndio da semana passada, que não provocou vítimas mortais, foi apenas mais um incidente numa vida marcada pelo sofrimento.

Os desalojados encontram-se ao relento desde quarta-feira, recebendo algumas doações de roupa e bens alimentares, da comissão administrativa de Luanda e organizações da sociedade civil, insuficientes para as necessidades, relata Talita Miguel, coordenadora da comunidade do Povoado.

Espalhados pelo chão, no meio dos detritos e do pó, há colchões, tendas, fogareiros caseiros, os parcos bens com os quais as famílias tentam prosseguir as suas rotinas quotidianas. Sem trabalho e sem dinheiro, muitos tentam ganhar o sustento com pequenos negócios, dedicando-se à pesca ou fazendo biscates.

Adão Capanda é um deles. O jovem de 29 anos, que vive da pesca, não estava no Povoado na semana passada. Quando chegou, o casebre onde vivia com a mulher, a filha bebé, de cinco meses, e mais dois sobrinhos, tinha desaparecido

Tem contado com a ajuda de colegas e amigos, bem como alguns donativos, e mostra-se cético quando à solução que as autoridades afirmam estar a preparar.

Soube pelos jornalistas que a proposta é serem deslocados para o Icolo e Bengo, onde lhes serão dados terrenos para fazer a sua própria casa. Mas considera que as dificuldades serão ainda maiores.

“Antes de vivermos aqui, vivíamos na Areia Branca e a maioria da população depende do mar, não vemos como conseguir sobreviver no Bengo. O país está a atravessar uma crise e muitos ficaram no desemprego. A maioria da juventude tem o mar como seu refúgio, como é que vamos sobreviver”, questiona.

Adão Capanda afirma que vai ser muito difícil: “como vamos conseguir sobreviver? Uma casa não é emprego, uma casa não vai nos dar de comer”.

Emanuela de Jesus Samuhongo escapou do fogo, mas trouxe apenas a roupa no corpo e mostra-se desencorajada com a situação.

“Não tenho nem um lençol para me tapar, na minha casa não sobrou nada”, desabafou a mãe de quatro filhos, que nem tem ido trabalhar por não ter o que vestir.

“Não sei como vou fazer à minha vida, estamos à espera do que vai acontecer”, desespera.

Alguns polícias, vigilantes, tentam garantir condições de segurança, acompanhados de um elemento da proteção civil, enquanto representantes das comissões de moradores e da administração se juntam para distribuir sacos com roupa recebidos há pouco.

É quando um dos vizinhos lhe faz chegar às mãos um jornal que a revolta de Talita Miguel dispara e alastra aos populares.

A notícia, divulgada na terça-feira pela Lusa, dava conta de que as autoridades angolanas vão realojar em Kaxicane, município de Icolo e Bengo, as famílias afetadas, a cerca de 60 quilómetros de Luanda.

Surpreendida pela informação, Talita Miguel garante: “não vamos aceitar”.

E continua, cada vez mais exaltada: “Estão a matar-nos, com o desgaste fisco, com o desgaste psicológico, não estamos em condições de receber loteamento, temos muitas casas construídas que nem sabemos quem são os verdadeiros donos. Onde é que estão os direitos humanos? Sentimo-nos refugiados no nosso próprio país”.

A coordenadora do Povoado diz que muitos jovens da localidade vivem do mar, pelo que levá-los para o Bengo significa também retirar o sustento da família.

“Se estiverem a pensar em realojamento, descartem essa hipótese, porque preferimos morrer e sair daqui nos caixões para nos enterrar, não nos metam no Bengo”, gritou Talita Miguel, apelando ao Presidente para que use as suas competências para lhes proporcionar um realojamento digno e “não se deixe enganar pelo executivo”

À sua volta, os populares acompanham a indignação e cresceu a onda de revolta. Sem explicações oficiais, nem avisos sobre os planos que outros adotaram para as suas vidas, prometem lutar e não abdicam dos seus direitos.

 “Somos cidadãos angolanos, precisamos de ajuda. Estamos aqui perto do Palácio e não recebemos visita de nenhum governante, não houve nenhuma visita para ver como nós estamos. Não nos abandonem mais uma vez”, pediu ainda Rosalina.

Lusa

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