Na RD Congo, violência sexual sobrevive à guerra

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A violência sexual afeta mulheres solteiras, casadas, grávidas e até os homens em Kasai, no centro da República Democrática do Congo, apesar da pacificação.

Nesta região rica em diamantes e teoricamente em paz desde meados de 2017, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) afirma que tratou 1.373 vítimas entre janeiro e março, o que chama de “situação muito preocupante”.

“Recebemos pacientes que sofreram violência com penetração, ou não. As vítimas estão traumatizadas em qualquer caso”, disse à AFP o doutor Kourouma Facely, diretor da MSF para cuidados médicos e saúde mental das vítimas em Kananga, a capital da província de Kasai central.

– “Medo” –

Marissa (nome fictício), de 31 anos, afirma que foi estuprada no fim de abril por três homens, quando havia acabado comprar tomates e pimentas, numa localidade a 50 km de Kananga.

“Saíram da selva, armados com facões. Me pediram dinheiro e, como eu não tinha, eles me agrediram e me estupraram, um depois do outro”, conta a jovem.

“Tenho dores vaginais, nas costas, no ventre”, afirma esta mãe de cinco filhos num hospital de Kananga.

“Tenho medo de que estes homens tenham me infectado com aids”, completa a viúva, que perdeu o marido durante o conflito entre as forças de segurança e as milícias Kamuina Nsapu.

Entre setembro de 2016 e março de 2017, a região foi cenário de uma explosão da violência entre as forças de segurança e uma milícia comunitária após a morte de um líder tradicional, Kamuina Nsapu, vítima de uma operação militar.

Mais de 3.000 pessoas morreram, 1,5 milhão foram deslocadas, e muitas mulheres foram violentadas.

Quase quatro anos após o fim do conflito, a violência sexual perdura na região, o que desmente a ideia de que os estupros seriam consequência dos conflitos e dos grupos armados, como no leste do país.

Os Kivus continuam sendo o epicentro da violência sexual no ex-Zaire, uma agressão contra a qual o médico Denis Mukwege, vencedor do prêmio Nobel da Paz, luta de maneira incansável.

– Pena dupla –

Em Kasai, as milícias e os grupos armados não estão mais presentes, mas os estupros prosseguem em níveis alarmantes. O conflito parece ter atuado como um catalisador e atraiu a atenção internacional sobre o tema.

“A violência sexual existia mesmo antes do conflito”, afirma uma enfermeira de Kananga, Marthe Tshiela.

Segundo a MSF, a faixa etária mais afetada é a de 18-45 anos. Há 3% de homens entre as vítimas.

E mesmo grávidas, como Marinette, de 39 anos, mãe de oito filhos, que está recebendo tratamento após ter sido estuprada por ladrões em casa.

Entre as pessoas que recebem atendimento médico, apenas 40% chegam 72 horas depois da agressão, o prazo para os tratamentos preventivos contra doenças sexualmente transmissíveis.

Profundamente traumatizadas, as vítimas temem a dupla condenação da rejeição social dentro de sua comunidade, de sua família, ou de seu companheiro.

“Quase 60% das mulheres vítimas de estupro são rejeitadas por seus maridos e têm que assumir o cuidado de seus filhos”, relata Marthe Tshiela.

Segundo a enfermeira, às vezes ela recebe “casais, com homens que acompanham as esposas durante o acompanhamento psicológico” pós-estupro. Mas é algo pouco frequente.

– Impunidade e compromissos –

Como acontece em outras regiões da RDC, o flagelo da impunidade também pesa sobre as vítimas, das quais apenas 40% recorrem à Justiça.

Quando comparecem aos tribunais, a maioria das vítimas não recebe indenização, afirma a presidente da ONG Mulheres Unamos Nossas Mãos para o Desenvolvimento de Kasai (FMMDK), Nathalie Kambala.

Os parentes das vítimas “preferem resolver o caso amistosamente para conseguir roupas, ou cabras, em detrimento dos menores, porque a Justiça não faz seu trabalho”, completa.

Kasai é uma das regiões mais pobres da RDC, onde 46% das mulheres se casam antes dos 18 anos.

Lusa

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