Violência em Palma reforça alerta para vigilância transfronteiriça

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O ataque de rebeldes a Palma, matando dezenas e ameaçando os projetos de gás do norte de Moçambique, reforça o alerta para a vigilância transfronteiriça naquela zona de África, considera César Guedes, um dos responsáveis das Nações Unidas no país.

“Esta é novamente uma chamada de atenção para a necessidade de maior cooperação transfronteiriça de Moçambique com países vizinhos”, nomeadamente com a Tanzânia, disse hoje em entrevista à Lusa o representante do Escritório das Nações Unidas para a Droga e Crime Organizado (UNODC) em Moçambique, um mês após o ataque.

Moçambique e Tanzânia “são países irmãos”, sublinhou, numa conversa via Internet. “A mão tanzaniana sempre foi uma mão fraterna”, desde a independência moçambicana e este é outro momento “que afeta os dois países”, porque os ataques rebeldes em Cabo Delgado “têm tentáculos além-fronteiras”.

O fortalecimento da cooperação deve abranger outros países, “como Congo, Maláui ou Quénia e dar uma olhada para o outro lado do mar como as Comores, França”, através do território ultramarino das ilhas Maiote, “e Madagáscar. São outras fronteiras muito perto de Cabo Delgado, especialmente de Palma”.

“Há grande interesse comercial na área do gás e petróleo, em que companhias francesas têm grandes investimentos e o território ‘Schengen’ [área de 26 países europeu sem controlo de fronteiras] mais próximo é Maiote”, cerca de 600 quilómetros a leste de Palma, alerta.

A UNODC tem dado formação para que Moçambique participe cada vez mais na vigilância marítima que César Guedes considerou ser uma peça importante na cooperação transfronteiriça.

A partir do que viu na América do Sul e Ásia, aquele responsável considera que “uma situação de caos é a situação ideal” para que redes criminosas transnacionais desenvolvam “as suas atividades ilícitas”.

Noutros países “estes criminosos contribuem com um imposto” pago aos atacantes: “não estou certo se tal acontece em Moçambique, mas ficaria surpreso se não acontecesse. É o denominador comum em países como Perú, Colômbia, Bolívia, Afeganistão ou Síria”, referiu.

As autoridades moçambicanas devem estar atentas a qualquer incremento de tráfico de animais, drogas ou pesca ilegal que pode estar a escapar à vigilância em Cabo Delgado devido às atenções concentradas no conflito, alerta César Guedes.

“Estes grupos [rebeldes], tontos não são”, disse na entrevista à Lusa, ao considerar que o ataque a Palma parece ter tido dois objetivos: saquear e ganhar notoriedade.

“O barco com comida”, que havia chegado a Palma, “e o aspeto tático”, de atacar alvos ocidentais, “podem ser parte da mesma equação”, destacou.

“Isto não foi uma coisa pouco planificada, acho o contrário”, disse, considerando que houve análise e recolha de informação pelo insurgentes de forma a escolher “o momento oportuno” para o ataque.

No caso de Palma, “o alvo foi realmente o interesse estrangeiro, com impacto mediático”, referiu César Guedes.

“Sempre que estes grupos armados irregulares entram, a fazer ataques” em diferentes partes do globo, “todo o mundo pensa que é coisa pequena, mas depois é como uma bola de neve e converte-se em situação de cuidado”, descreveu.

A UNODC dedica-se à capacitação das autoridades moçambicanas e desde 2019 já promoveu 10 ações de formação sobre combate ao terrorismo, beneficiando polícia de investigação, agentes judiciais e outros intervenientes.

Noutro âmbito, Pemba, Beira e Maputo são alguns dos portos onde tem decorrido formação em vigilância marítima para aprimorar as capacidades de alerta antecipado e abordagem a embarcações suspeitas, seguindo os protocolos internacionais.

A UNODC tem prestado ainda apoio técnico para criação de um órgão conjunto de segurança marítima com sede em Maputo juntando Moçambique, África do Sul e Tanzânia.

Os três países assinaram um memorando de cooperação em 2018 e o escritório deve abrir nos próximos meses, referiu César Guedes, depois de ultrapassados constrangimentos à circulação devido à covid-19 e ultrapassados calendários eleitorais em cada país.

Moçambique vai ter um escritório de estratégia, recolha e troca de informações entre as marinhas dos três países, onde cada um vai ter um perito, juntamente com os da UNODC, para reforçar o patrulhamento e segurança ao largo das três costas contíguas – de norte para sul, Tanzânia, Moçambique e África do Sul – do sudoeste do oceano Índico, incluindo o Canal de Moçambique.

Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes segundo o projeto de registo de conflitos ACLED e 714.000 deslocados de acordo com o Governo moçambicano.

O mais recente ataque foi feito em 24 de março contra a vila de Palma, provocando dezenas de mortos e feridos, num balanço ainda em curso.

As autoridades moçambicanas recuperaram o controlo da vila, mas o ataque levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do projeto de gás com início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

Fonte: Lusa

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