Cafunfo chora os seus mortos, ainda com corpos por enterrar

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Quatro dias depois dos incidentes em que vários dos seus filhos perderam a vida, Cafunfo chora os mortos, procurando ainda os corpos das vítimas, num lamento visível nas ruas pela morte de inocentes.

Cafunfo chora os seus mortos, ainda com corpos por enterrar

Testemunhas ouvidas pela Lusa contam mais de 20 mortos durante os incidentes ocorridos sábado na vila mineira da Lunda Norte, 750 quilómetos a leste de Luanda, enquanto as autoridades contabilizam apenas sete e alegam ter reagido a uma tentativa de invasão de uma esquadra, um “ato de rebelião” protagonizado por elementos armados do Movimento Protetorado Português da Lunda Tchokwe.

Cafunfo já não está em estado de sítio como os moradores relataram no passado fim de semana, mas polícias e elementos das Forças Armadas Angolanas continuam visíveis em redor da vila mineira, acessível por uma penosa estrada onde é difícil fazer os 44 quilómetros desde Cuango, o município mais próximo, em menos de duas horas.

Mas a vila está de luto e, entre os habitantes, sente-se a indignação e a revolta dos que estão ainda em busca de familiares e não percebem o porquê da violência das forças angolanas.

André Candala, 62 anos, catequista e coordenador da comunidade São José Operário, no bairro Bala Bala, disse à Lusa que morreram, pelo menos, 25 pessoas.

“O povo de Cafunfo está de luto. É uma tristeza, mesmo durante toda a guerra, do início da guerra de 61 até à guerra civil, nunca aconteceu a morte como hoje aconteceu a muitos”, salientou,

Segundo os seus registos, há 25 mortos, apesar de só sete corpos terem sido entregues às famílias. Outros, ainda por identificar, foram encontrados na ravina “onde se passou fogo”, enquanto outros corpos foram lançados ao rio.

André Candala diz que o governo mente e que, se a intenção dos manifestantes fosse invadir uma esquadra, teriam invadido o posto fiscal, na entrada da vila mineira.

“Mas deixaram [os manifestantes] avançar e foram emboscados e mortos com metralhadoras”, relata.

Os testemunhos recolhidos pela Lusa no local coincidem: houve muitas mortes e morreram inocentes. Um deles foi Zango Elias, seminarista, sobrinho de Alfredo Alexandre Moisés, coordenador das comunidades da Paróquia de São José.

“A bala que lhe atingiu não foi pela frente, se fosse uma pessoa que vinha nessa marcha a bala deveria ter atingido à frente, mas atingiu atrás e saiu na barriga”, contou, mostrando a foto do jovem cujo único crime foi estar na rua: “Um inocente que estava a sair de casa”.

Nesta terra, rica em diamantes e pobres, o movimento Protetorado da Lunda Tchokwe é o alvo do governo no que toca a responsabilidades, mas algumas organizações não governamentais, oposição angolana e bispos católicos já consideram o incidente de sábado um “massacre”.

O ministro do Interior, Eugénio Laborinho, diz que foi o movimento que incitou a revolta contra o Estado, por interesses no garimpo e acusa forças estrangeiras na República Democrática de Congo de estarem na origem dos incidentes.

Mas quem mora em Cafunfo sente-se abandonado pelo governo e justifica o protesto com as condições de vida precárias da população

André Candala diz que a pressão das autoridades começou ainda antes de sábado, dia 30 de janeiro, data em que o movimento pretendia realizar uma manifestação previamente comunicada. Entre os dias 27 e 29, “entraram nas casas, a fazerem buscas dos jovens”, muitos dos quais ainda desaparecidos.

Além da procura por pessoas potencialmente ligadas ao movimento, houve avisos da polícia à população para que se mantivessem em casa e o próprio administrador do município foi até uma igreja para alertar os moradores de Cafunfo.

“O administrador veio avisar que ‘o governo vai fazer tudo o que vocês querem, vai fazer a estrada, vai vos dar a água’, mas ninguém pode participar nesta marcha porque haverá risco”, disse Alfredo Moisés.

A mensagem espalhou-se e muitas famílias preferiram manter-se em casa com as crianças. Entre sábado e domingo, os moradores ficaram entrincheirados, sem poderem sair nem para comprar comida, contaram alguns habitantes.

“Nós cumprimos, ficámos nas nossas casas”, sublinha Alfredo Alexandre Moisés que tem estado a compilar listas de mortos, prisioneiros e desaparecidos, cruzando informações das famílias com os cadáveres que vão aparecendo.

As pessoas estão com medo, prossegue André Candala, também coordenador paroquial da Comissão de Justiça e Paz pelos Direitos Humanos

“Aqui ainda há caça ao homem, estão a tirar muita gente das casas, mas o povo agora tem medo de nos informar”, lamenta o responsável.

“Se vão perguntar, a polícia logo diz que ‘és do protetorado e por isso estás a procura dos outros’, então não vão”, corrobora Alfredo Moisés.

André Candala mostrou-nos as ravinas cobertas de lixo onde muitos terão caído já mortos e outros fugido, feridos ou não, escondendo-se nas matas.

Os corpos só começaram a ser encontrados quando as pessoas começaram a circular. “Os militares bloquearam essa parte toda, não queriam que a população passasse para ver os cadáveres”, continua André Candala, explicando por que só a partir de segunda-feira e terça-feira começaram a ser retirados corpos.

Alguns cadáveres foram encontrados a “passar no rio” por mulheres que voltavam das lavras. “Temos provas concretas do que se está a passar. O governo diz que são uns rebeldes que queriam invadir a unidade policial, mas é pura mentira”, critica o catequista.

André Candala pede ao governo que reconheça as mortes e diz que se havia, de facto, uma intenção de invadir, os infratores deviam ter sido presos: “eles é que fazem a lei, ninguém tem direito a tirar a vida, mesmo cometendo o erro, devem meter na cadeia e ser julgado”.

Defende também que as famílias devem ser indemnizadas e que ninguém estava “a fazer manifestação por fazer”, criticando os que “fazem o povo sentir medo e continuar a viver na miséria”.

“Disseram que estão a organizar um grupo das forças armadas para entrar nas casas, buscando catana, enxada, machado que são instrumentos dos camponeses. Isso é a vida do povo ou é para matar o povo?” – questionou, indignado.

Alfredo Moisés, diz que aos 72 anos, já não tem medo: “Temos de falar para o governo ouvir esse povo, por que é que morreram?”

Fonte: Lusa

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