Lesados da Build Angola marcharam hoje em Luanda pedindo justiça

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Duas centenas de lesados da Build Angola desfilaram hoje em Luanda pedindo justiça numa burla em que alegam estarem envolvidos gestores públicos angolanos e valores superiores a 200 milhões de dólares.

A marcha, com partida às 10:00, saiu à hora marcada do largo da Mutamba, com os manifestantes a envergarem ‘t-shirts’ brancas com a palavra “Basta!” e a cumprirem um rigoroso distanciamento social.

“Queremos justiça” apelaram os cerca de 200 lesados durante o curto trajeto que os levou até à marginal de Luanda, concentrando-se em frente à sede do Banco Nacional de Angola.

“Ouçam a voz dos cidadãos” e “são angolanos a matar sonhos de angolanos”, gritava-se através do megafone.

 Era Josina Sango, 43 anos, dando voz à indignação dos lesados que, sem casas e sem dinheiro, exigem à justiça reparação pelos danos causados

Foi assim que exprimiu a sua revolta pela burla que se arrasta há 13 anos, sem desfecho à vista.

O seu caso envolve a perda de mais de um milhão de dólares (860 milhões de euros).

Em 2009, a mãe quis comprar casas para os cinco filhos, fez os contratos, pagou, mas nada foi construído, contou Josina Sango à Lusa, salientando que há pessoas que contraíram créditos que vão pagar até 2034.

Depois de a juíza que estava com o caso ter sido nomeada desembargadora, Josina Sango teme que o processo sofra novas demoras e foi isso também que levou os lesados a manifestarem-se em Luanda.

Afirmou ainda que, “ao contrário do que se tenta dizer”, não foram burlados por brasileiros: “fomos burlados por angolanos, gestores de instituições públicas que são sócios de empresas ligadas à Build Angola”.

O mesmo garante o coordenador da comissão que representa os lesados, Hélio Silvestre.

“Temos de desmistificar o facto de os envolvidos serem brasileiros, 95% são angolanos e gestores públicos”, garante o responsável que investiu — e perdeu — 230 mil dólares (198 mil euros) no projeto Bem Morar em 2007.

Rosa Esteves, de 69 anos, juntou-se ao protesto em representação do irmão, Amândio Esteves já falecido, também ele vítima de burla num projeto habitacional

“Estou aqui por ele e por todos aqueles que estão doentes e têm dívidas [por causa da Build Angola]. Esta é uma causa justa”, declarou à Lusa.

Mónica Briffe tem 34 anos e investiu, em 2010, 98 mil dólares (84 mi euros) no projeto “Nosso Lar” que “não deu em nada”

“Íamos ao terreno e nunca começaram a construir nada. Depois, os brasileiros desapareceram e os angolanos não tinham respostas para nos darem”, disse Mónica Briffe, lamentando que os pais do então jovem casal, que ajudaram a financiar a casa, tenham também sido prejudicados.

Por já terem passado dez anos, Mónica Briffe tem pouca esperança de algum dia reaver o dinheiro investido, mas é uma das lesadas que tem um processo a correr os seus trâmites em tribunal.  

A burla afeta mais de mil pessoas, várias delas já falecidas, num litígio com empreendedores brasileiros e angolanos. Em 2018, os lesados da “Build Angola” que envolve vários projetos habitacionais apresentaram um processo cível em tribunal contra os promotores dos empreendimentos na tentativa de reaver os 230 milhões de dólares (197 milhões de euros) investidos.

No dia em que se assinalam três de anos de governação do Presidente João Lourenço, Luanda é hoje palco de mais duas manifestações. Além da dos lesados, várias organizações da sociedade civil agendaram uma marcha do desemprego para as 12:00.

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